
Angiotomografia Coronariana: Indicações, Preparo e Interpretação
Quando solicitar angioTC coronariana, como preparar o paciente, escore de cálcio e alternativas diagnósticas para doença arterial coronariana.
# Angiotomografia Coronariana: Indicações, Preparo e Interpretação
A angiotomografia computadorizada coronariana (angioTC) consolidou-se como método não invasivo de referência para avaliação anatômica das artérias coronárias. Sua capacidade de identificar estenoses, caracterizar placas e estratificar risco cardiovascular a posiciona como ferramenta central na abordagem da dor torácica e da doença arterial coronariana (DAC).
Fundamentos técnicos
Requisitos do equipamento
A angioTC coronariana exige resolução temporal alta (capacidade de "congelar" o coração em movimento). Equipamentos com pelo menos 64 detectores são necessários; scanners de nova geração (256-320 detectores ou dual-source) oferecem performance superior.
Na prática: A tomografia computadorizada é ferramenta versátil e rápida, mas o princípio ALARA deve guiar cada solicitação — o benefício diagnóstico deve superar o risco da exposição à radiação.
Resolução temporal — O intervalo de tempo em que os dados são adquiridos. Quanto menor, melhor a imagem do coração em movimento. Equipamentos dual-source alcançam ~66 ms; single-source com 64 canais, ~175 ms.
Resolução espacial — Aproximadamente 0,4-0,6 mm, suficiente para avaliar artérias coronárias com diâmetro de referência de 2-4 mm.
Gating cardíaco
A aquisição é sincronizada com o ECG para capturar imagens na fase do ciclo cardíaco com menos movimento (geralmente diástole, em torno de 70-80% do intervalo RR). Com frequências cardíacas elevadas, a fase sistólica (30-40% RR) pode ser melhor.
Indicações clínicas
Dor torácica aguda
A angioTC tem alto valor preditivo negativo para excluir DAC significativa em pacientes com dor torácica e risco baixo a intermediário. Diretrizes internacionais (ESC, AHA/ACC) recomendam como primeira linha em cenários específicos:
- Probabilidade pré-teste baixa a intermediária de DAC.
- ECG não diagnóstico e troponina negativa ou limítrofe.
- Alternativa ao teste ergométrico com vantagem de avaliação anatômica.
Dor torácica estável (crônica)
Pacientes com angina estável e probabilidade intermediária de DAC. O estudo SCOT-HEART demonstrou que a angioTC, comparada ao manejo convencional, resultou em melhor ajuste terapêutico.
Outras indicações
- Avaliação de anomalias congênitas de coronárias.
- Planejamento pré-operatório (TAVI, reoperação cardíaca).
- Avaliação de pontes de safena e mamárias (bypass).
- Avaliação de stents coronarianos (limitada para stents < 3 mm).
- Complemento a testes funcionais duvidosos.
Escore de cálcio coronariano
O que é
Aquisição sem contraste, com baixa dose, que quantifica calcificações nas artérias coronárias (escore de Agatston).
Interpretação
| Escore | Interpretação |
|---|---|
| 0 | Sem calcificação detectável — probabilidade muito baixa de DAC significativa |
| 1-99 | Aterosclerose leve |
| 100-399 | Aterosclerose moderada |
| ≥ 400 | Aterosclerose extensa |
Utilidade
- Estratificação de risco cardiovascular em assintomáticos com risco intermediário.
- Escore 0 reclassifica para risco muito baixo (VPN elevadíssimo para eventos em 5-10 anos).
- Auxilia na decisão sobre necessidade de medicações preventivas (estatinas).
- Pode ser realizado em poucos segundos, sem contraste, com dose muito baixa (<1 mSv).
Limitações do escore de cálcio
- Não detecta placas não calcificadas (moles) — pacientes jovens com DAC podem ter escore zero.
- Não avalia grau de estenose luminal.
- Não deve ser usado como rastreamento universal (indicar conforme fatores de risco).
Preparo do paciente
Controle da frequência cardíaca
Objetivo: FC < 60-65 bpm para equipamentos single-source; dual-source é mais tolerante.
Betabloqueador: Metoprolol oral (50-100 mg, 1h antes) ou intravenoso (5-15 mg em doses fracionadas, na sala de exame). Verificar contraindicações (asma grave, BAV avançado, IC descompensada).
Vasodilatação coronariana
Nitroglicerina sublingual: 0,4-0,8 mg, 3-5 minutos antes da aquisição. Dilata coronárias e melhora visualização luminal. Contraindicada em hipotensão, uso recente de inibidores de PDE5.
Jejum e hidratação
- Jejum de 4h para contraste iodado.
- Hidratação adequada (especialmente em idosos e nefropatas leves).
- Verificar creatinina/TFG recente.
Instruções ao paciente
- Treinar apneia (inspiração moderada, manter 10-15 segundos).
- Evitar cafeína nas 12h anteriores (pode elevar FC).
- Informar sobre sensação de calor com contraste (normal).
Contraindicações
- Alergia grave a contraste iodado (sem possibilidade de pré-medicação).
- Insuficiência renal grave (TFG < 30) — avaliação individualizada.
- Gestação.
- Arritmia importante com irregularidade frequente (fibrilação atrial com resposta rápida — limitação relativa; equipamentos modernos com padding podem compensar).
- Incapacidade de manter apneia.
Interpretação e comunicação
O que avaliar
- Anatomia coronariana — Dominância, variantes, anomalias.
- Estenoses — Grau (mínima < 25%, leve 25-49%, moderada 50-69%, significativa 70-99%, oclusão).
- Caracterização de placa — Calcificada, não calcificada (mole), mista. Placas de alto risco: remodelamento positivo, baixa atenuação, calcificação spotty, sinal do anel de guardanapo.
- Achados extracardíacos — Pulmões, mediastino, aorta (avaliação do campo de visão completo).
Classificação CAD-RADS
Sistema padronizado de comunicação:
| CAD-RADS | Estenose máxima | Conduta sugerida |
|---|---|---|
| 0 | 0% | Sem mais testes |
| 1 | 1-24% | Sem mais testes |
| 2 | 25-49% | Sem mais testes (considerar prevenção) |
| 3 | 50-69% | Teste funcional |
| 4A | 70-99% (1-2 vasos) | Cateterismo ou teste funcional |
| 4B | 70-99% (3 vasos ou TCE) | Cateterismo |
| 5 | Oclusão total | Cateterismo e avaliação de viabilidade |
| N | Não diagnóstico | Considerar alternativas |
Modificadores
- S — Stent presente.
- G — Bypass (graft) presente.
- V — Vulnerabilidade de placa (características de alto risco).
Alternativas e complementaridade
Quando preferir cateterismo direto
- Síndrome coronariana aguda com alta probabilidade (STEMI, NSTEMI de alto risco).
- Probabilidade pré-teste muito alta de DAC obstrutiva.
- Necessidade provável de intervenção imediata.
Quando preferir testes funcionais
- Estenoses intermediárias na angioTC (50-69%) — isquemia determina conduta.
- Pacientes com doença conhecida onde a dúvida é funcional, não anatômica.
Complementaridade
AngioTC mostra anatomia; cintilografia, eco stress e RM cardíaca mostram consequência funcional. A combinação "anatomia + função" oferece a avaliação mais completa.
Perguntas Frequentes
Quando a tomografia é realmente necessária?
A TC é indicada quando exames mais simples (radiografia, ultrassom) são insuficientes para responder à questão clínica, em emergências (trauma, AVC, abdome agudo) e para planejamento cirúrgico/intervencionista. O médico solicitante deve justificar a indicação considerando o benefício diagnóstico versus a exposição à radiação.
O contraste iodado é sempre necessário na tomografia?
Não. Muitas indicações dispensam contraste (cálculos renais, fraturas, avaliação pulmonar). O contraste é necessário quando a diferenciação entre tecidos normais e patológicos exige realce vascular ou parenquimatoso. O radiologista define o protocolo adequado a cada indicação.
Qual o risco real da radiação em uma tomografia?
O risco individual de uma TC é muito baixo (aumento teórico de risco de câncer na ordem de 0,01-0,05% por exame). Porém, o efeito é cumulativo, e o princípio ALARA orienta usar a menor dose necessária. O benefício diagnóstico deve sempre superar o risco teórico, conforme avaliação médica.
Conclusão
A angiotomografia coronariana é ferramenta não invasiva poderosa para avaliação da DAC. Seu uso criterioso — com indicação adequada, preparo otimizado e interpretação padronizada (CAD-RADS) — permite manejo clínico baseado em evidências, evitando cateterismos desnecessários e identificando pacientes que realmente necessitam intervenção.