
Radiologia Musculoesquelética Básica: O que Procurar em Joelho, Ombro e Coluna
Introdução à imagem musculoesquelética. Achados comuns em RM de joelho, ombro e coluna que todo profissional deve conhecer.
# Radiologia Musculoesquelética Básica: O que Procurar em Joelho, Ombro e Coluna
O sistema musculoesquelético é uma das áreas mais demandantes em diagnóstico por imagem. Dor articular e lombalgia estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios, e a ressonância magnética se tornou o exame de referência para avaliação de partes moles. Conhecer os achados fundamentais permite ao profissional interpretar laudos com mais propriedade e comunicar-se melhor com o radiologista.
RM de Joelho
O joelho é a articulação mais frequentemente avaliada por RM. As principais estruturas e patologias:
Na prática: A imagem da coluna vertebral deve ser interpretada no contexto clínico — achados degenerativos são prevalentes e frequentemente assintomáticos, não devendo ser sobrevalorizados.
Meniscos
Anatomia: Estruturas fibrocartilaginosas em formato de "C" (medial) e "O" (lateral). Funções: absorção de impacto, distribuição de carga, estabilização.
Lesão meniscal — o que a RM mostra:
- Grau I — Sinal intrameniscal que não atinge a superfície articular (degeneração mucoide, não é lesão verdadeira).
- Grau II — Sinal linear intrameniscal que não atinge a superfície (idem).
- Grau III — Sinal que atinge a superfície articular em pelo menos 2 imagens contíguas. ESTE é o critério de rotura.
Tipos de lesão: Horizontal, vertical longitudinal, radial, complexa, alça de balde (bucket handle — fragmento deslocado para o intercôndilo).
Sinais indiretos: Cisto parameniscal (quase sempre associado a rotura), extrusão meniscal (protrusão > 3 mm além da margem tibial).
Ligamento cruzado anterior (LCA)
RM normal: Faixa hipointensa (escura) bem definida do côndilo femoral lateral à tíbia anterior.
Rotura completa:
- Descontinuidade ou não visualização do ligamento.
- Angulação anormal.
- Edema no trajeto.
Sinais secundários de rotura do LCA:
- Contusão óssea (bone bruise) no côndilo femoral lateral e platô tibial posterolateral — padrão de pivot shift.
- Translação tibial anterior > 7 mm.
- Buckling do LCP (concavidade posterior excessiva).
- Sinal do sulco profundo (deep sulcal sign) no côndilo lateral.
Cartilagem articular
Avaliada em sequências com contraste líquido-cartilagem (PD fat-sat, T2 mapping):
- Grau I — Amolecimento (sinal alterado, contorno preservado).
- Grau II — Lesão com menos de 50% da espessura.
- Grau III — Lesão com mais de 50% da espessura.
- Grau IV — Exposição do osso subcondral (lesão full-thickness).
Edema ósseo (bone marrow edema)
Hipersinal em T2/STIR na medular óssea. Causas: contusão traumática, osteoartrose (edema subcondral), fratura por estresse, necrose avascular, infecção.
RM de Ombro
Manguito rotador
Composto por quatro tendões: supraespinal, infraespinal, subescapular e redondo menor. O supraespinal é o mais frequentemente acometido.
Tendinopatia:
- Espessamento do tendão.
- Sinal intermediário em T2 (sem hipersinal franco).
- Sem descontinuidade.
Rotura parcial:
- Hipersinal em T2 em parte da espessura do tendão.
- Classificação por face: bursal (superior), articular (inferior) ou intrassubstancial.
Rotura completa:
- Descontinuidade total do tendão (gap entre as bordas).
- Retração do coto tendinoso (medir em cm — relevante para cirurgia).
- Atrofia e infiltração gordurosa do músculo (classificação de Goutallier) — indica cronicidade e pior prognóstico cirúrgico.
Labrum glenoidal
Estrutura fibrocartilaginosa que aprofunda a cavidade glenoide. Lesões associadas a instabilidade:
- Lesão de Bankart — Desinserção anteroinferior do labrum (luxação anterior).
- SLAP (Superior Labrum Anterior to Posterior) — Lesão superior, frequente em atletas arremessadores.
- Lesão de Hill-Sachs — Fratura por impactação posterolateral da cabeça umeral (associada a Bankart).
Artrose acromioclavicular
Achado extremamente frequente (quase universal em > 50 anos). Osteófitos inferiores podem causar impacto subacromial e contribuir para lesão do supraespinal.
RM de Coluna
Hérnia discal
Terminologia padronizada (NASS/ASNR):
- Protrusão — Extensão focal do disco além da margem vertebral, com base maior que o ápice. Componente herniário contido pelo ânulo fibroso.
- Extrusão — Base menor que o ápice OU migração craniocaudal. Material discal ultrapassa o ligamento longitudinal posterior.
- Sequestro — Fragmento de disco livre (sem continuidade com o disco de origem).
Localização:
- Central, paracentral, foraminal, extraforaminal.
- A localização determina qual raiz nervosa é comprimida (ex: hérnia L4-L5 paracentral comprime raiz L5).
Estenose de canal
Central: Redução do diâmetro anteroposterior do canal vertebral. Avaliada subjetivamente ou com medidas (< 10 mm = estenose absoluta na coluna lombar).
Foraminal: Estreitamento do forame neural por osteófito, hipertrofia facetária, ou hérnia foraminal. Pode comprimir a raiz no nível do forame (raiz "sainte" — ex: L4 no forame L4-L5).
Lateral (recesso lateral): Estreitamento por hipertrofia do processo articular superior.
Edema vertebral (Modic)
Alterações de sinal nas plataformas vertebrais adjacentes a discos degenerados:
- Modic I — Edema/inflamação (hipersinal T2, hiposinal T1). Associado a dor.
- Modic II — Substituição gordurosa (hipersinal T1 e T2). Mais estável.
- Modic III — Esclerose (hiposinal T1 e T2). Menos comum.
Espondilolistese
Deslocamento anterior (ou posterior) de uma vértebra sobre a subjacente. Classificação de Meyerding por grau de escorregamento.
Quando NÃO solicitar RM musculoesquelética
- Lombalgia aguda sem sinais de alarme (< 6 semanas) — guidelines recomendam tratamento conservador primeiro.
- Dor no ombro sem falha de tratamento conservador (4-6 semanas de fisioterapia).
- Gonalgia sem bloqueio mecânico ou instabilidade e sem falha de tratamento inicial.
- Exame normal recente (< 6 meses) sem mudança clínica significativa.
Correlação clínico-radiológica
Achado em RM não é sinônimo de causa da dor. Exemplos:
- Roturas meniscais degenerativas são frequentes em assintomáticos > 50 anos.
- Protrusões discais são encontradas em mais de 50% dos adultos assintomáticos.
- Lesões parciais do supraespinal são comuns em > 60 anos sem sintomas.
O laudo deve ser interpretado à luz da clínica. Tratar a imagem sem considerar o paciente leva a intervenções desnecessárias.
Perguntas Frequentes
Quais são as principais contraindicações da ressonância magnética?
As contraindicações absolutas incluem implantes ferromagnéticos (marca-passo não condicional, clips de aneurisma cerebral antigos, fragmentos metálicos intraoculares). Contraindicações relativas incluem claustrofobia, implantes de segurança condicional e primeiro trimestre gestacional. O médico avalia caso a caso.
Por que a ressonância magnética é tão demorada?
A RM adquire sinais de diferentes tecidos usando múltiplas sequências (T1, T2, difusão, contraste), cada uma fornecendo informação complementar. A resolução espacial e o contraste tecidual superiores exigem tempo de aquisição maior que outros métodos. Protocolos focados podem reduzir o tempo quando apropriado.
A ressonância magnética usa radiação ionizante?
Não. A RM utiliza campos magnéticos e radiofrequência, sem qualquer exposição à radiação ionizante. Isso a torna particularmente adequada para pacientes pediátricos, gestantes (após primeiro trimestre, quando indicado) e exames seriados de seguimento, sempre a critério médico.
Conclusão
A radiologia musculoesquelética oferece informações anatômicas detalhadas, mas sua utilidade depende da indicação correta e da correlação com o quadro clínico. O profissional que entende a terminologia, reconhece achados relevantes e distingue alterações significativas de variantes do normal toma melhores decisões terapêuticas.