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Ressonância Magnética da Articulação Temporomandibular

Ressonância Magnética da Articulação Temporomandibular

RM da ATM: indicações clínicas, protocolo de aquisição, achados de deslocamento de disco e artrose temporomandibular.

Dra. Patrícia Alves05 de novembro de 2025

# Ressonância Magnética da Articulação Temporomandibular

A ressonância magnética (RM) é o método de imagem de escolha para avaliação da articulação temporomandibular (ATM). Sua capacidade de demonstrar tecidos moles — especialmente o disco articular — sem radiação ionizante a torna indispensável na investigação de disfunções temporomandibulares.

Anatomia Relevante

A ATM é uma articulação sinovial bilateral do tipo ginglimoartrodial, formada pelo côndilo mandibular e a fossa mandibular do osso temporal. O disco articular (menisco) é uma estrutura fibrocartilaginosa bicôncava que divide a articulação em compartimentos superior e inferior.

Na prática: A ressonância magnética oferece excelente contraste de partes moles sem radiação ionizante, mas exige conhecimento das contraindicações (implantes, claustrofobia) e protocolos específicos por indicação.

Em posição normal (boca fechada), a banda posterior do disco situa-se sobre o ápice do côndilo, na posição de 12 horas. Na abertura bucal, o disco acompanha o movimento de translação anterior do côndilo.

Indicações Clínicas

A RM da ATM é indicada em:

  • Dor articular refratária ao tratamento conservador
  • Estalidos ou crepitação articular
  • Limitação de abertura bucal
  • Travamento articular (lock)
  • Planejamento pré-cirúrgico
  • Avaliação pós-operatória
  • Suspeita de tumores da região

Protocolo de Aquisição

Bobina e posicionamento

Utiliza-se bobina de superfície bilateral dedicada para ATM ou bobina flexível posicionada sobre a região pré-auricular. O paciente é orientado a permanecer com os dentes levemente separados durante as sequências em boca fechada.

Sequências essenciais

Boca fechada:

  • Sagital oblíquo T1 (perpendicular ao eixo longo do côndilo)
  • Sagital oblíquo T2 ou DP com saturação de gordura
  • Coronal oblíquo T1 ou DP

Boca aberta (com dispositivo posicionador):

  • Sagital oblíquo T1 ou DP
  • Sagital oblíquo T2 com saturação de gordura

A espessura de corte recomendada é de 2-3 mm, com campo de visão de 10-12 cm para cada lado.

Achados Normais

Na RM normal com boca fechada:

  • Disco articular com sinal baixo homogêneo em todas as sequências
  • Banda posterior sobre o ápice condilar
  • Zona bilaminar posterior ao disco com sinal intermediário
  • Cortical condilar regular com sinal de medular óssea normal
  • Espaço articular livre

Com boca aberta:

  • Translação anterior do côndilo até a eminência articular
  • Disco interposto entre côndilo e eminência (posição adequada)

Deslocamento de Disco

O deslocamento anterior do disco é a alteração mais comum, presente em até 30% da população assintomática, segundo estudos populacionais com RM.

Deslocamento com redução

  • Boca fechada: banda posterior do disco anterior ao ápice condilar
  • Boca aberta: disco retorna à posição normal sobre o côndilo
  • Clínica: estalido na abertura bucal, geralmente sem limitação significativa

Deslocamento sem redução

  • Boca fechada: disco anteriorizado
  • Boca aberta: disco permanece anteriorizado, não se recaptura
  • Clínica: limitação de abertura, possível travamento (lock), dor

Deslocamento lateral e posterior

Menos frequentes, mas clinicamente significativos. Os cortes coronais são fundamentais para identificar deslocamentos laterais e mediais.

Alterações Degenerativas (Artrose)

A osteoartrose da ATM manifesta-se na RM por:

  • Irregularidade da cortical condilar
  • Osteófitos marginais
  • Esclerose subcondral (hipossinal em T1 e T2)
  • Achatamento da superfície articular
  • Edema subcondral (hipersinal em T2/STIR)
  • Cistos subcondrais
  • Derrame articular

A presença de edema da medular óssea (bone marrow edema) correlaciona-se com atividade inflamatória e dor, sendo um achado clinicamente relevante.

Outras Alterações

Efusão articular

Líquido com hipersinal em T2 nos compartimentos articulares. Pequenas quantidades são fisiológicas; efusões volumosas sugerem sinovite ou artrite ativa.

Alterações inflamatórias

Na artrite reumatoide e artrite idiopática juvenil, pode-se observar sinovite com realce pós-contraste, erosões e destruição articular progressiva.

Aderências discais

O disco pode aderir à fossa temporal, perdendo mobilidade. A RM dinâmica ou cinemática pode demonstrar ausência de deslizamento do disco.

Tumores

Lesões neoplásicas primárias da ATM são raras (condromatose sinovial, osteocondroma). Mais frequentemente, tumores de parótida ou da fossa infratemporal podem envolver secundariamente a articulação.

Armadilhas Diagnósticas

  • Deslocamento de disco em assintomáticos (variante, não doença)
  • Alterações degenerativas leves em idosos (achado incidental)
  • Artefato de movimento em pacientes com dor intensa
  • Pseudo-deslocamento por corte sagital não perpendicular ao côndilo
  • Confusão entre efusão fisiológica e patológica

Correlação Clínica

O laudo da RM da ATM deve ser integrado ao contexto clínico. Achados isolados de deslocamento de disco ou alterações degenerativas leves nem sempre explicam os sintomas do paciente. A comunicação com o cirurgião bucomaxilofacial ou o especialista em dor orofacial é fundamental para o manejo adequado.

Alternativas e Complementos

  • Tomografia computadorizada: superior para avaliação óssea detalhada
  • Ultrassonografia: avaliação dinâmica em tempo real do disco (operador-dependente)
  • Artrografia por RM (artro-RM): raramente necessária, reservada para casos duvidosos
  • Cone beam CT: avaliação óssea com menor dose que TC convencional

Perguntas Frequentes

Quais são as principais contraindicações da ressonância magnética?

As contraindicações absolutas incluem implantes ferromagnéticos (marca-passo não condicional, clips de aneurisma cerebral antigos, fragmentos metálicos intraoculares). Contraindicações relativas incluem claustrofobia, implantes de segurança condicional e primeiro trimestre gestacional. O médico avalia caso a caso.

Por que a ressonância magnética é tão demorada?

A RM adquire sinais de diferentes tecidos usando múltiplas sequências (T1, T2, difusão, contraste), cada uma fornecendo informação complementar. A resolução espacial e o contraste tecidual superiores exigem tempo de aquisição maior que outros métodos. Protocolos focados podem reduzir o tempo quando apropriado.

A ressonância magnética usa radiação ionizante?

Não. A RM utiliza campos magnéticos e radiofrequência, sem qualquer exposição à radiação ionizante. Isso a torna particularmente adequada para pacientes pediátricos, gestantes (após primeiro trimestre, quando indicado) e exames seriados de seguimento, sempre a critério médico.

Considerações Finais

A RM da ATM é exame tecnicamente exigente, que requer protocolo adequado e experiência do radiologista na interpretação. Quando bem executada, fornece informações precisas sobre posição discal, alterações degenerativas e condição dos tecidos moles, orientando o tratamento de forma personalizada. A padronização da técnica e a correlação clínica são os pilares de um laudo útil ao médico solicitante.

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