
TC no Abdome Agudo: Achados Críticos que Todo Radiologista Deve Conhecer
Tomografia no abdome agudo: achados de apendicite, diverticulite, obstrução intestinal e isquemia mesentérica.
# TC no Abdome Agudo: Achados Críticos que Todo Radiologista Deve Conhecer
A tomografia computadorizada (TC) é o exame de imagem de escolha na avaliação do abdome agudo, com exceção de situações específicas (gestantes, suspeita de colecistite). Sua capacidade de avaliar rapidamente toda a cavidade abdominal e identificar condições que exigem intervenção urgente a torna indispensável no pronto-socorro.
Protocolo no Abdome Agudo
Indicações para contraste endovenoso
A maioria dos cenários de abdome agudo se beneficia do uso de contraste iodado endovenoso. As fases adquiridas dependem da suspeita clínica:
Na prática: Cada caso clínico é uma oportunidade de aprendizado: correlacionar achados de imagem com apresentação clínica e desfecho fortalece o raciocínio diagnóstico.
- Fase portal (70-80s): protocolo padrão para a maioria das indicações
- Fase arterial (25-35s): suspeita de sangramento ativo ou isquemia mesentérica
- Fase tardia (5-10min): útil para avaliação de extravasamento urinário
Contraste oral
Não é obrigatório para a maioria das indicações emergenciais. Retarda o exame e a TC com contraste EV isolado apresenta excelente acurácia para as principais causas de abdome agudo.
Apendicite Aguda
Achados clássicos
- Apêndice com diâmetro superior a 6 mm (medido de parede externa a parede externa)
- Realce parietal do apêndice inflamado
- Densificação da gordura periapendicular (fat stranding)
- Apendicolito (presente em 25-30% dos casos)
- Espessamento do ceco adjacente
Complicações
- Perfuração: defeito na parede, ar extraluminal, coleção periapendicular
- Abscesso: coleção organizada com realce periférico
- Flegmão: densificação difusa periapendicular sem coleção definida
- Pileflebite: trombose da veia porta ou de seus ramos (complicação rara e grave)
Armadilhas
- Apêndice retrocecal (pode ser difícil de identificar)
- Apendicite de coto (pós-apendicectomia)
- Diverticulite cecal simulando apendicite
- Apêndice normal preenchido por conteúdo fecal (não confundir com apendicolito)
Diverticulite Aguda
Achados típicos
- Espessamento segmentar do cólon (geralmente sigmoide)
- Densificação da gordura pericólica
- Divertículos associados
- Espessamento fascial adjacente
- Pequena quantidade de líquido livre regional
Classificação de Hinchey (modificada)
- Ia: inflamação pericólica confinada (flegmão)
- Ib: abscesso pericólico pequeno (<4 cm)
- II: abscesso pélvico ou à distância
- III: peritonite purulenta generalizada
- IV: peritonite fecal
Complicações
- Abscesso (indicação de drenagem percutânea se > 3-4 cm)
- Fístula (colovesical, colovaginal, colocutânea)
- Obstrução colônica
- Trombose de veia mesentérica inferior
- Perfuração livre com pneumoperitônio
Obstrução Intestinal
Achados de obstrução mecânica
- Dilatação de alças a montante (delgado > 3 cm; cólon > 6 cm; ceco > 9 cm)
- Zona de transição identificável (alça dilatada → alça colapsada)
- Descompressão de alças a jusante
- "Small bowel feces sign" (conteúdo fecaloide em delgado proximal à obstrução)
Causas mais frequentes
- Bridas/aderências: causa mais comum em pacientes com cirurgia prévia; zona de transição sem massa identificável
- Hérnia encarcerada: identificação de alça em orifício herniário (inguinal, femoral, incisional, interna)
- Neoplasia: massa com estenose, especialmente em cólon
- Intussuscepção: aspecto em "alvo" ou "rim" nos cortes axiais
- Volvo: aspecto em "redemoinho" (whirl sign) dos vasos mesentéricos
Sinais de sofrimento de alça (estrangulamento)
Achados que indicam urgência cirúrgica:
- Ausência de realce parietal (isquemia transmural)
- Espessamento parietal com hipo-realce
- Pneumatose intestinal (ar na parede)
- Gás no sistema portal ou mesentérico
- Mesentério hemorrágico (hiperdensidade espontânea da gordura)
- Líquido livre inter-alças hemorrágico
Isquemia Mesentérica
Isquemia arterial aguda
- Trombo ou êmbolo na artéria mesentérica superior (AMS)
- Ausência de realce de alças no território afetado
- Pneumatose intestinal
- Gás portal-mesentérico
- Espessamento ou adelgaçamento parietal segmentar
- Dilatação de alças com conteúdo líquido
Isquemia venosa
- Trombose da veia mesentérica superior
- Edema mesentérico difuso ("misty mesentery")
- Espessamento parietal com realce mucoso preservado (inicialmente)
- Ascite
Isquemia não oclusiva
- Sem trombo identificável
- Vasoconstrição difusa
- Hipoperfusão em contexto de baixo débito cardíaco
- Diagnóstico frequentemente de exclusão
Outras Causas Críticas
Perfuração de víscera oca
- Pneumoperitônio (ar livre)
- Identificação do ponto de perfuração (descontinuidade parietal, ar adjacente)
- Líquido livre com densidade heterogênea
Pancreatite aguda
- Edema pancreático difuso ou focal
- Densificação da gordura peripancreática
- Coleções líquidas peripancreáticas
- Áreas de necrose (ausência de realce)
Ruptura de aneurisma de aorta abdominal
- Aneurisma com diâmetro geralmente > 5 cm
- Hematoma retroperitoneal (hiperdensidade espontânea)
- Sinal do "crescente" hiperdenso (sangue fresco na parede)
- Extravasamento ativo de contraste
Comunicação de Achados Críticos
O radiologista tem obrigação ética e legal de comunicar achados que exigem intervenção imediata diretamente ao médico assistente, não apenas via laudo escrito. Exemplos de achados que exigem comunicação verbal imediata:
- Isquemia mesentérica com sinais de sofrimento
- Pneumoperitônio com sinais de perfuração
- Sangramento ativo
- Obstrução em alça fechada
- Dissecção ou ruptura aórtica
Perguntas Frequentes
Qual exame de imagem é mais indicado no abdome agudo?
A escolha depende da apresentação clínica: ultrassom é primeira linha para dor em hipocôndrio direito e quadrante inferior direito. TC com contraste é o método de escolha para dor abdominal difusa, suspeita de obstrução ou perfuração. O médico define conforme o contexto clínico e a estabilidade do paciente.
A TC de abdome sempre precisa de contraste?
Não. Cálculos urinários são melhor avaliados sem contraste. Porém, para a maioria das indicações de abdome agudo (apendicite, diverticulite, obstrução, isquemia), o contraste venoso melhora significativamente a acurácia diagnóstica. O radiologista define o protocolo conforme a indicação clínica.
Quais achados de abdome agudo exigem comunicação imediata?
Achados que exigem comunicação urgente incluem: pneumoperitônio (perfuração), isquemia mesentérica, ruptura de aneurisma, torção de pedículo (ovário, testículo), obstrução em alça fechada e abscesso com sinais de sepse. O radiologista deve comunicar imediatamente ao médico responsável pelo paciente.
Considerações Finais
A TC no abdome agudo exige interpretação rápida e precisa em contexto de urgência. O radiologista deve ser capaz de identificar prontamente os achados críticos que indicam necessidade de intervenção cirúrgica imediata, diferenciá-los de condições manejáveis conservadoramente e comunicar efetivamente seus achados à equipe assistencial. O treinamento sistemático e a exposição a casos variados são fundamentais para essa competência.