
Ultrassonografia de Tireoide e Classificação TI-RADS
US de tireoide e sistema TI-RADS: como classificar nódulos tireoidianos, critérios para biópsia e seguimento.
# Ultrassonografia de Tireoide e Classificação TI-RADS
A ultrassonografia é o método de imagem primário para avaliação da tireoide. A sistematização da avaliação de nódulos por meio do ACR TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System) trouxe padronização à conduta e reduziu biópsias desnecessárias, ao mesmo tempo em que mantém alta sensibilidade para malignidade.
Técnica de Exame
Equipamento
Transdutor linear de alta frequência (7-15 MHz) é obrigatório para avaliação adequada. Frequências mais altas (12-15 MHz) oferecem melhor resolução superficial, enquanto frequências menores (7-9 MHz) são necessárias para tiroides volumosas ou bócios mergulhantes.
Na prática: A detecção precoce de nódulos permite intervenção em estágios iniciais, quando as opções terapêuticas são mais amplas e os prognósticos mais favoráveis.
Protocolo básico
- Avaliação em cortes transversais e longitudinais de ambos os lobos e istmo
- Mensuração dos lobos (três eixos) e de cada nódulo significativo
- Avaliação com Doppler colorido e/ou power Doppler
- Avaliação dos compartimentos cervicais laterais (linfonodos)
- Documentação fotográfica padronizada
ACR TI-RADS: Fundamentos
O ACR TI-RADS, publicado em 2017, baseia-se em sistema de pontuação que avalia cinco características ultrassonográficas de cada nódulo:
1. Composição
- Cístico ou quase completamente cístico: 0 pontos
- Espongiforme: 0 pontos
- Misto (cístico e sólido): 1 ponto
- Sólido ou quase completamente sólido: 2 pontos
2. Ecogenicidade
- Anecoico: 0 pontos
- Hiperecoico ou isoecoico: 1 ponto
- Hipoecoico: 2 pontos
- Muito hipoecoico: 3 pontos
3. Forma
- Mais largo que alto: 0 pontos
- Mais alto que largo: 3 pontos
4. Margens
- Lisas: 0 pontos
- Mal definidas: 0 pontos
- Lobuladas ou irregulares: 2 pontos
- Extensão extratireoidiana: 3 pontos
5. Focos ecogênicos
- Nenhum ou artefatos em cauda de cometa: 0 pontos
- Macrocalcificações: 1 ponto
- Calcificações periféricas (rim): 2 pontos
- Focos ecogênicos puntiformes: 3 pontos
Categorias TI-RADS
A soma dos pontos define a categoria:
- TR1 (Benigno): 0 pontos — sem indicação de PAAF
- TR2 (Não suspeito): 2 pontos — sem indicação de PAAF
- TR3 (Levemente suspeito): 3 pontos — PAAF se ≥ 2,5 cm; seguimento se ≥ 1,5 cm
- TR4 (Moderadamente suspeito): 4-6 pontos — PAAF se ≥ 1,5 cm; seguimento se ≥ 1,0 cm
- TR5 (Altamente suspeito): ≥ 7 pontos — PAAF se ≥ 1,0 cm; seguimento se ≥ 0,5 cm
Quando Biopsiar
A decisão de biópsia combina a categoria TI-RADS com o tamanho do nódulo. Essa abordagem baseada em risco-tamanho reduz significativamente o número de biópsias em nódulos de baixo risco sem comprometer a detecção de malignidade clinicamente relevante.
Exceções e considerações especiais
- Nódulos com linfonodomegalia cervical suspeita adjacente: considerar PAAF independentemente do tamanho
- Pacientes com história de irradiação cervical prévia: considerar limiares menores
- História familiar de câncer de tireoide: individualizar decisão
- Nódulos em crescimento rápido documentado: considerar PAAF mesmo se categoria baixa
Achados Suspeitos de Malignidade
Características que mais elevam a suspeita:
- Nódulo sólido marcadamente hipoecoico
- Margens irregulares ou espiculadas
- Forma mais alta que larga (crescimento perpendicular ao plano tecidual)
- Microcalcificações (focos ecogênicos puntiformes sem sombra)
- Extensão extratireoidiana
A combinação de múltiplas características suspeitas aumenta significativamente o valor preditivo positivo para malignidade.
Achados Benignos
Padrões que favorecem benignidade:
- Nódulo puramente cístico
- Padrão espongiforme (múltiplas microcavidades císticas ocupando >50% do volume)
- Nódulo isoecoico com halo hipoecóico regular
- Nódulo com calcificação grosseira central tipo "casca de ovo"
Seguimento (Follow-up)
Nódulos não biopsiados
- TR3: reavaliação em 1, 3 e 5 anos
- TR4: reavaliação em 1, 2, 3 e 5 anos
- TR5: reavaliação anual por 5 anos
Critérios para biópsia no seguimento
Crescimento significativo é definido como aumento de 20% em pelo menos duas dimensões, com aumento mínimo de 2 mm em cada dimensão. Mudança de categoria também pode indicar necessidade de PAAF.
Quando encerrar o seguimento
Nódulos estáveis por 5 anos de seguimento podem ter o acompanhamento descontinuado, especialmente nas categorias TR3 e TR4.
Armadilhas Diagnósticas
- Tireoidite de Hashimoto: pseudonódulos inflamatórios podem simular nódulos sólidos hipoecoicos
- Artefato de volume parcial: pequenos cistos coloides podem parecer sólidos
- Calcificações grosseiras: podem gerar sombra que impede avaliação completa
- Nódulos confluentes: múltiplos nódulos podem ser contados erroneamente
- Nódulos posteriores: atenuação impede avaliação adequada de ecogenicidade
Doppler na Avaliação de Nódulos
Embora não faça parte do sistema de pontuação TI-RADS, o Doppler complementa a avaliação:
- Vascularização periférica: mais associada a nódulos benignos
- Vascularização central intranodular: levemente mais associada a malignidade
- Hipervascularização difusa: pode indicar tireoidite ou doença de Graves
Elastografia
A elastografia (strain ou shear wave) avalia a rigidez do nódulo. Nódulos malignos tendem a ser mais rígidos que o parênquima normal. Embora promissora, a elastografia não é incluída formalmente no ACR TI-RADS e deve ser utilizada como informação complementar.
Perguntas Frequentes
Todo nódulo de tireoide precisa de biópsia?
Não. O sistema ACR TI-RADS combina características ultrassonográficas com o tamanho do nódulo para definir a indicação de biópsia. Nódulos de baixa suspeita (TR1 e TR2) não requerem biópsia independentemente do tamanho. A decisão final é do médico, considerando o contexto clínico.
O que significam os pontos do sistema TI-RADS?
O ACR TI-RADS atribui pontos com base em cinco características do nódulo: composição, ecogenicidade, forma, margens e focos ecogênicos. A soma dos pontos determina a categoria de suspeita (TR1 a TR5), que orienta a conduta quanto a biópsia ou seguimento.
Com que frequência devo repetir o ultrassom de tireoide para acompanhamento?
O intervalo de seguimento depende da categoria TI-RADS: TR3 é reavaliado em 1, 3 e 5 anos; TR4 em 1, 2, 3 e 5 anos; TR5 anualmente por 5 anos. Nódulos estáveis por 5 anos podem ter o acompanhamento descontinuado, a critério do médico assistente.
Considerações Finais
O sistema ACR TI-RADS fornece framework reprodutível e baseado em evidências para o manejo de nódulos tireoidianos. Sua aplicação sistemática reduz variabilidade inter-observador e otimiza a indicação de biópsia. O radiologista deve dominar os critérios de classificação, conhecer as limitações do sistema e comunicar claramente suas recomendações ao médico assistente, sempre contextualizando os achados de imagem com o cenário clínico do paciente.